quinta-feira, 1 de maio de 2008

LICENCIATURAS EM TRÊS ANOS: UMA EXCRESCÊNCIA

LICENCIATURAS EM TRÊS ANOS: UMA EXCRESCÊNCIA(*)

Clóvis Pereira da Silva[i]

O Governo Federal continua com o firme propósito de transformar em sucata o Sistema Nacional de Graduação - SNG. Seus atos neste sentido são divulgados diariamente pela imprensa, e se referem a sucateamento das universidades federais via redução de verbas para a manutenção das mesmas, via pagamento de salários aviltados aos docentes e aos técnicos – administrativos dessas instituições, via autorização desordenada para criação de novos cursos de graduação por parte de Instituições de Ensino Superior privadas. Para evitar o caos no SNG é necessário que a parte esclarecida da sociedade reaja de forma veemente. O futuro de nossa nação será moldado por nossas reações.

Nosso particular interesse está voltado para a oferta por Instituições de Ensino Superior - IES privadas dos cursos de licenciaturas em Matemática em três anos, excrescência que foi aprovada em 2002 pelo Conselho Nacional de Educação – CNE (cf. Resolução CNE/CP n° 2, de 19 de fevereiro de 2002).

A parte esclarecida da sociedade precisa fazer a si mesma a seguinte pergunta: como ficará o Brasil no competitivo contexto mundial com a oferta de cursos de licenciaturas em três anos e de má qualidade? Lembramos que estes são cursos formadores de professores do ensino básico (professores de matemática, física, química, história, geografia, língua portuguesa, etc.).

Será esta uma estratégia idealizada pelo Banco Mundial para assegurar nossa inserção no mundo capitalista globalizado como nação periférica, exportadora de recursos naturais, de produtos agrícolas e de mão – de - obra barata, e dependente ad infinitum da importação de ciência e tecnologia de ponta? Este atual estado de coisas interessa a quem? Certamente que não interessa à nação brasileira.

Segundo informações contidas no Informativo nº 136 do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira-INEP, órgão do MEC, de 24/5/2006, o país tinha 2.381 IES. Desse total as IES privadas correspondiam a 89,83%. As 10,17% restantes eram IES públicas. Este é um número assustador tendo em vista a má qualidade dos cursos de licenciaturas, em particular, licenciaturas em Matemática, ofertados pela grande maioria dessas instituições privadas. Chamamos a atenção do leitor para observar a quantidade de jovens brasileiros que estão tendo uma formação de graduação de baixa qualidade. Este é um problema gravíssimo.

A educação do brasileiro não pode ser tratada como um grande e lucrativo negócio que desperta o interesse de grupos privados nacionais e estrangeiros. Sabemos que a venda de serviços da educação superior afasta a universidade do estudo do rigor teórico, da vigilância epistemológica e das soluções dos problemas nacionais.

A excelência da educação escolar da nação com conseqüente formação de seus líderes é um dos itens da soberania nacional[ii]. Um bom e inteligente sistema educacional deve ser uma prioridade para a nação. A qualidade de vida dos brasileiros no presente e no futuro, sua inserção no mundo capitalista globalizado serão determinados pela qualidade da educação escolar do país. A sociedade brasileira deve repassar esses princípios às autoridades responsáveis pelas coisas da educação.

O Brasil não pode esperar outros quinhentos anos para ser criado um Sistema Nacional de Ensino de boa qualidade. O momento é agora. A respeito da boa qualidade da educação nacional vejamos o que nos informa (BARROS, 1986, p. 207)[iii].

A educação como observa Tito Lívio de Castro, é, por excelência, o fator mesológico mutável, entre outros fatores imutáveis: dela, por conseguinte, é que temos de esperar tudo. É a alta cultura, especialmente de índole científica, que produz a prosperidade material, que pode enriquecer o país, torná-lo saudável e feliz. Para que a tenhamos, é preciso difundir as “luzes” por todas as classes sociais, espalhar o ensino primário, estabelecer o ensino secundário, criar o ensino técnico, especialmente o profissional e o agrícola. Mas, antes e acima de tudo, é preciso reformar o ensino superior, torná-lo sólido e eficaz, porque sem ele será vã qualquer outra tarefa. Sem uma elite intelectual bem preparada, como esperar a ilustração do povo? (...) Assim, se se quer um povo ilustrado, é preciso, primeiro, que se constitua uma elite verdadeiramente ilustre: que, democraticamente, do seio do próprio povo, saiam os seus guias, mas que essa posição de liderança seja conferida pelo saber e pela ciência. Ora, é exatamente o ensino superior que terá de formar esses guias, esses “ilustrados” a quem cabe acelerar a marcha histórica do país, a quem compete conduzi-lo à meta que a ciência e a indústria apontam como a era feliz da humanidade...

O atual SNG está estruturado para não garantir um avanço significativo da educação escolar brasileira; não está estruturado para fazer a inclusão social dos excluídos. Seu modelo tende a aprofundar o fosso social existente atualmente entre a minoria incluída e a maioria excluída da sociedade do conhecimento. O incentivo à massificação da oferta de cursos de graduação (aí incluídos os cursos de licenciaturas) de má qualidade é uma insensatez. É um produto de gestores incompetentes.

A nação brasileira precisa decidir se quer para si um modelo de universidade que seja capaz de inserir o Brasil na intensa competição internacional do mundo atual. Desejamos a universidade brasileira como sendo uma instituição moderna que possa contribuir para nos retirar da triste e vergonhosa condição de país exportador de cérebros, de matéria prima, e país dependente da ciência e da tecnologia desenvolvidas por outros países.

Sabemos que o futuro de nossa nação está intimamente ligado à qualidade da formação de suas elites intelectuais.

Assim que a Resolução CNE/CP n° 2, de 19 de fevereiro de 2002, foi publicada a imprensa nacional divulgou notícias de que os proprietários das IES privadas afirmavam que a inadimplência dos alunos em suas instituições ocorria a partir do segundo ano do curso.

Logo, inferimos que reduzir as licenciaturas para três anos funcionaria como a solução perfeita para reduzir a inadimplência de alunos clientes, assim como para atrair novos alunos. E quanto à qualidade dos cursos de licenciaturas a serem integralizados em três anos? Por que o CNE e o Ministro da Educação não acataram as informações de alerta, e os protestos contra as licenciaturas em três anos apresentados pela sociedade organizada, via sociedades científicas? Os gestores da educação brasileira foram alertados sobre os danos irreversíveis que causariam à formação de professores a aprovação da referida Resolução. Qual o propósito dos membros do CNE quando aprovaram a Resolução acima citada?

A partir do segundo semestre de 2002 várias IES privadas sediadas em diversas cidades brasileiras passaram a ofertar cursos de licenciaturas, inclusive em Matemática, em três anos letivos e funcionando apenas no período noturno. Principal objetivo dos proprietários dessas IES privadas: atrair a maior quantidade possível de alunos com a oferta de cursos de formação de professores em três anos. Sabemos que o processo “seletivo” para ingresso de alunos nas IES privadas é uma grande farsa. A imprensa nacional já divulgou, por exemplo, o caso de um analfabeto que havia sido aprovado em “processo de seleção” para um curso de Direito de uma determinada IES privada.

Para serem ofertados novos cursos de licenciaturas em Matemática em três anos, as grades curriculares desses mesmos cursos que eram ofertados em quatro anos tiveram que ser reduzidas. Várias disciplinas pertencentes a grandes áreas do conhecimento como: Álgebra, Geometria, Análise Matemática, Estatística, Física, História e Fundamentos da Matemática, Formação Pedagógica, contendo conceitos básicos da Matemática, e indispensáveis à boa formação do licenciado em Matemática foram suprimidas, criando-se assim verdadeiras grades monstros curriculares que passaram a graduar néscios numéricos, os novos licenciados em Matemática, que serão os professores das novas gerações de brasileiros analfabetos numéricos. Lembremo-nos do desempenho dos estudantes brasileiros nas diversas versões do Programa Internacional de Avaliação de Alunos – PISA, que aborda as áreas: Ciência, Leitura, Matemática.

Os cursos de licenciatura em Matemática de três anos são ofertados pelas IES privadas no período noturno. Em geral, os alunos de cursos noturnos precisam trabalhar durante o dia, inclusive aos sábados, para pagar a mensalidade do curso e para se manterem. Apresenta-se aqui um dos problemas do sistema. O aluno não tem tempo para estudar corretamente, nem para realizar as poucas e reduzidas tarefas escolares exigidas pelos professores do curso. A trapaça nos exames das disciplinas desses cursos chega a ser considerada um direito do aluno. Como aprender Matemática sem ter tempo para se dedicar aos estudos necessários, sem ter tempo para freqüentar bibliotecas (supondo que as IES privadas possuam boas e atualizadas bibliotecas, o que não é verdade). Sem ter bons, qualificados e experientes professores (nestas instituições os professores ganham por aula dada) para orientar os alunos, e sem o apoio de um consolidado ambiente científico que as IES privadas não têm? No processo ensino e aprendizagem não há mágica.

O processo de formação ou desinformação por meio desses cursos de licenciaturas em Matemática em três anos tem como características: a pobreza de informações teóricas essenciais à boa formação do professor de ensino básico, a precariedade nas manipulações matemáticas, e a precariedade no uso da informática como ferramenta auxiliar.

O responsável pela elaboração da grade curricular de um curso de licenciatura em Matemática a ser integralizado em três anos à noite passará a dispor de cinco noites por semana (de segunda-feira à sexta-feira), cada noite com três horas e trinta minutos de atividades escolares, para integralizar a carga horária de 2.800 horas, conforme determina o Art. 1° da Resolução CNE/CP n° 2, de 19 de fevereiro de 2002. Esta pessoa passará a utilizar os sábados para que algumas disciplinas tenham aulas regulares e desse modo cumprir a lei.

Isto funcionará apenas no papel, pois a grande maioria dos alunos das IES privadas trabalha também aos sábados, e assim sendo tais alunos não poderão assistir aulas aos sábados. Relembramos que por força da Lei nº 9.394/96, (a LDB) a freqüência é obrigatória a, pelo menos, 75% das aulas de cada disciplina do curso.

Há outro grave problema originado pelo sistema atual. Como as IES privadas procuram matricular o maior número possível de alunos clientes, eles são matriculados, por exemplo, em um curso de licenciatura em Matemática sem possuírem conhecimentos básicos necessários a alguém que aspira ser professor de Matemática.

Em resumo. Os cursos de licenciaturas em Matemática que eram ofertados em quatro anos por IES privadas já eram de má qualidade, devido a uma série de fatores que são do conhecimento das autoridades competentes, e a partir de 2002 esses mesmos cursos de má qualidade passaram a ser ofertados em três anos de duração. Teremos como resultado desse imbróglio a má qualidade elevada a n-ésima potência, , com n sendo um número inteiro positivo maior que 1.

O licenciado em Matemática deve ser um profissional que, dentre outras coisas tenha o perfil seguinte: saiba dominar conhecimentos matemáticos não triviais; tenha consciência do modo de produção próprio da Matemática (origens, processo de criação, inserção cultural); tenha conhecimento das aplicações da Matemática em várias áreas do conhecimento; seja capaz de perceber o quanto o conhecimento de certos conteúdos e o desenvolvimento de certas habilidades e competências próprias ao fazer matemático são relevantes para o exercício pleno da cidadania; seja capaz de observar seus alunos, ensiná-los a pensar, e buscar alternativas de ação que propiciem o desenvolvimento de autonomia e pensamento desses alunos.

Com a oferta de cursos de licenciatura em Matemática em três anos será impossível graduar profissionais com tal perfil, além de habilidades e competências que são determinadas pelo colegiado do curso.

Com isso poderemos inferir que o Governo Federal conseguiu criar o seguinte quadro sombrio. Os futuros professores de matemática graduados por IES privadas aprenderão quase nada, e por sua vez, menos que quase nada passarão para seus futuros alunos. Chegará o momento em que este quase nada tenderá para zero. Ainda bem que a USP e outras universidades públicas ofertam bons cursos de licenciatura em Matemática que são integralizados em quatro anos e em cinco anos, dependendo do período.

E La nave va.

NOTAS

[i] Doutor pela USP; Docente aposentado pelo Departamento de Matemática da UFPR; Vice-Presidente da SBHMat; Consultor da CAPES; Membro da Atual Diretoria da APUFPR. E-mail: clovips2@uol.com.br

[ii]Os responsáveis pelas coisas da educação dos países desenvolvidos sabem o que isto significa para seus países.

[iii] BARROS, Roque Spencer Maciel de. A Ilustração Brasileira e a Idéia de Universidade. São Paulo: Editora Convívio/ EdUSP, 1986.
(*) O artigo foi encaminhado pelo autor e aprovado pela equipe do blog para publicação.

terça-feira, 29 de abril de 2008

O Observatório responde ao presidente do PROIFES


Caros colegas,
Como Presidente do PROIFES, peço-lhes o obséquio de publicar os esclarecimentos que a seguir faço, de modo a que os leitores desse blog possam ser devidamente informados sobre as negociações da recente campanha salarial dos docentes das IFES.Em primeiro lugar, o PROIFES não é uma 'facção', e sim uma entidade nacional representativa dos professores das IFES. Tem sede em Brasília e reúne hoje mais de 20.000 docentes de 35 IFES. No processo de consulta que resultou na assinatura do Termo de Acordo do Ensino Superior o PROIFES ouviu mais de 4.000 professores em todo o país, não só através de consultas eletrônicas como através de votações em urna, assembléias gerais, etc. Vale a pena informar que, para não assinar o mesmo documento, a ANDES consultou 445 em assembléias gerais, várias delas controvertidas, realizadas por suas ADs (dados obtidos da página dessa entidade).

(BLOG)Não temos condições de verificar os dados fornecidos, mas causa-nos estranheza porque diante de uma adesão tão expressiva, somente 5 AD´s estão formalmente filiadas ao PROIFES de acordo com a página da entidade nacional (consulta em 29 de Abril Às 12:30h).

Em segundo lugar, o autor do artigo 'Vazamento' de tabelas parece desconhecer os seguintes fatos básicos:1) As negociações entre Governo (MEC e MPOG) e entidades representativas dos professores (PROIFES, ANDES e SINASEFE) começaram em agosto de 2007, e terminaram, respectivamente, em 05 de dezembro de 2007 (Ensino Superior), com assinatura de Termo de Acordo entre o Governo, PROIFES e CUT; e em 20 de março de 2008, com assinatura de Termo de Acordo entre Governo, PROIFES, CUT e, posteriormente (04 de abril) SINASEFE.

(BLOG)Isto é do nosso conhecimento sim, o que não é do nosso conhecimento é em quais assembléias com a presença de docentes reais o PROIFES consultou suas bases sobre a participação da CUT nas negociações.

2) A ANDES não assinou nenhum dos dois Termos de Acordo;

(BLOG)Também é do nosso conhecimento e o fez com base nas deliberações de Assembléias que grandes ou pequenas têm livro de presença permitindo a verificação do quorum real ao contrário das votações hipotéticas realizadas por consultas eletrônicas na Internet, sem a identificação real do docente, que são promovidas pelo PROIFES.

3) Como conseqüência, as entidades credenciadas a publicar informações sobre os Termos de Acordo assinados por elas e respectivas tabelas são: em relação ao Ensino Superior, o PROIFES; e em relação ao Ensino Básico, Técnico e Tecnológico, o PROIFES e o SINASEFE.Portanto, informo-os que as TABELAS publicadas nas páginas do PROIFES (Ensino Superior) e nas páginas do PROIFES e SINASEFE (Ensino Básico, Técnico e Tecnológico) são as pactuadas entre essas entidades e o Governo, daí decorrendo que o termo 'Vazamento' só pode ser usado por alguém que desconhece a realidade ou pretende deformá-la.

(BLOG)Neste particular ponto a crítica do artigo não é dirigida ao PROIFES por publicar as tabelas, mas ao governo por não fazê-lo amplamente aos mais de 55.000 professores das IFES em todo o país.
Em terceiro e último lugar, sugiro aos leitores desse blog a leitura do Boletim 12 do PROIFES (ver página da entidade, www.proifes.org.br), em que todo o processo de negociação (tanto do Ensino Superior quanto do Ensino Básico, Técnico e Tecnológico) está cuidadosa e fielmente detalhado. Apenso ao Boletim 12 citado estão as tabelas finais, que deverão ser publicadas em instrumento legal a ser publicado pelo Governo, de acordo com os compromissos assumidos nos Termos de Acordo assinados.

(BLOG)Pelo nosso lado sugerimos aos leitores do blog e a todos os demais que leiam as notícias dos jornais de hoje para constatarem que com a exceção do acordo com os militares todos os demais acordos com servidores públicos estão na dependência de um suplemento orçamentário, o que demonstra a fragilidade do próprio acordo. Fragilidade, que em parte, deriva da dispersão da representação dos docentes das IFES após a criação do PROIFES.
Atenciosamente,
Professor Dr.Gil Vicente Reis de Figueiredo,
Universidade Federal de São Carlos, SP.
Presidente do PROIFES.
Segunda-feira, Abril 21, 2008 6:51:00 PM
O Observatório da Universidade é uma iniciativa independente, não vinculada ao ANDES, nem a nenhuma outra entidade ou partido político, que pretende promover o debate crítico e aberto sobre as questões da universidade e de seus protagonistas.
Professor Luis Paulo Vieira Braga
Universidade Federal do Rio de Janeiro, RJ.
Administrador do Observatório da Universidade
Terça-feira,29 de Abril de 2008.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Praia Vermelha Business Center

Praia Vermelha Business Center


O Conselho Universitário reunido hoje, dia 10 de abril de 2008, foi suspenso por determinação do Reitor que julgou não haver condições para sua continuidade, em vista da ocupação da sala de reuniões por cerca de trezentos estudantes que protestavam contra a votação sumária do novo plano diretor da UFRJ. Não foi uma boa reunião para o Reitor que teve, logo ao seu início, de anunciar a saída, a pedido, da professora Angela Rocha, decana do CCMN, da Comissão de Desenvolvimento do CONSUNI. Precisamente a Comissão envolvida com a tramitação do plano e em particular se tratando de uma dirigente que liderou no seu Centro e no CONSUNI a formulação do PRE-REUNI na UFRJ.

O plano diretor é ambicioso e não esconde isso ao afirmar no item 8.1, à página 26: ”O Plano de Reestruturação e Expansão e o Plano Diretor UFRJ 2020, que constitui sua faceta físico-territorial-patrimonial, apontam para uma ambiciosa transformação de nossa Universidade, sem paralelo nos últimos 40 anos. Eles não terão qualquer possibilidade de sucesso se, além dos recursos financeiros, não contarem com os recursos da inteligência, criatividade, engajamento e vontade política do conjunto da comunidade universitária. ” Pelo ocorrido hoje, aparentemente, está sobrando engajamento e vontade política, porém no sentido oposto ao indicado pelo plano.

Ao incorporar a totalidade das propostas do PRE-REUNI, mesmo aquelas que, de acordo com a votação no CONSUNI no ano passado, deveriam ser debatidas este ano, como é o caso da transferência das unidades de ensino da Praia Vermelha e a implantação dos bacharelados interdisciplinares e dos ciclos básicos amplos (Módulos II e III do PRE-REUNI da UFRJ) o plano diretor despertou contra si toda a animosidade que existe contra a compulsória reestruturação a que estão sendo constrangidas todas as instituições federais do país. Evidências disso são abundantes no documento. Por exemplo, nas Diretrizes Complementares à página 13, ao tratar das ¨Ações prioritárias para investimentos com recursos do orçamento 2007-2008¨ o documento indica que até 28 de abril deve ser apresentada para deliberação neste Conselho uma definição de área na Ilha do Fundão para a construção de prédio, em módulos, para abrigar salas de aula para novos alunos do CCJE, CFCH e CLA.

A pressa, dizem, é inimiga da perfeição, mas freqüentemente se dá muito bem com a contrafação. Na nota de rodapé número 18, à página 27, temos as seguintes indicações de ocupação: ¨...existem igualmente propostas para a edificação, na Praia Vermelha, de prédios para uso do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e para criação do Museu da Energia, para a edificação de um prédio para centro cultural e sede de empresas públicas e privadas, para a implantação de um hospital privado e para um prédio para laboratórios e consultórios médicos¨. Os projetos comerciais se integram assim à expansão do Rio Sul pela Brascan.

Estão certos os estudantes ao cobrarem sua cota neste latifúndio, ou dele só terão os palmos de suas covas.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Mulhol Land

Mulhol Land


Na terra do Reitor da Universidade de Brasília (UnB) e também presidente do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras (CRUB) prosperou a solução da complementação das verbas orçamentárias para custeio e salários pela remuneração de serviços através das fundações de apoio não governamentais. Iniciativa de professores da própria universidade essas fundações proliferaram nos campi federais e estaduais de todo o país e vêm recentemente sendo envolvidas em toda a sorte de escândalos, desde a contratação de familiares de dirigentes até a aplicação irregular de seus recursos, como parece ser o caso da UnB. A lei 8.112 de 11 de dezembro de 1990 prevê no Artigo 117 item IX que ao servidor é proibido valer-se do cargo para lograr proveito pessoal, também prevê no Artigo 147 o afastamento preventivo do servidor para que o mesmo não venha influir na apuração da irregularidade. Com a instauração formal do inquérito no Ministério Público Federal todos os elementos formais para o afastamento do Reitor da UnB estão disponíveis. Mas o impasse criado com a ocupação da reitoria pelos estudantes não termina com o afastamento do Reitor. Ela é muito mais profunda e advém do paradigma adotado para a obtenção de verbas extra orçamentárias.

A questão não pode ser tratada como uma questão de fé religiosa, caracterizando como pecaminosa qualquer forma de prestação de serviços, pois neste caso até o MST de Stédile, orador da aula magna de 2008 na UFRJ, sai respingado, ao manter convênios desta natureza com várias universidades. Como o projeto de reforma universitária desandou, a questão da autonomia financeira e de gestão das IFES foi varrida para baixo do tapete. A conseqüência foi o crescimento e a criação de fundações privadas de apoio. Os escândalos não se limitam a Brasília, recentemente uma das Fundações que operam na UFRJ, a fundação José Pelúcio, nome de um honrado e eficiente gestor da FINEP, já falecido, viu-se recentemente envolvida em um escândalo, com a prisão de alguns de seus dirigentes. Além desta, outras fundações operam na UFRJ: FUJB, COPPETEC, BIORIO e Charles Darwin - uma emblemática denominação. O marco legal existente para o controle destas fundações, seu credenciamento junto à universidade e deferimento dos convênios estabelecidos tem se revelado insuficiente para regular adequadamente o seu funcionamento. Duas alternativas se colocam: incorporá-las à estrutura da universidade, recuperando assim a publicidade, impessoalidade e transparência das suas atividades; ou manter o “laissez faire” , a terra de Mulhol.

A necessidade de integrar as fundações à administração central da universidade não decorre exclusivamente da prevenção de novos escândalos, mas também de ordenar o impacto que estas atividades estão tendo na vida acadêmica e administrativa da universidade que não é corretamente compensado com o simples pagamento de “overhead” . Muitas vezes as condições mínimas de instalação de um docente, ou mesmo de uma sala de aula só são possíveis para quem tem projetos, já quem não tem , fica como está... O potencial de convênios lucrativos vem também alterando o perfil de temas de pesquisa e de cursos. A proliferação de cursos de curta duração (3 anos) no rastro do REUNI demonstra isto claramente, e os seus autores nos acusavam há um ano de querermos a formação precoce do aluno... A diferença entre a universidade pública e a particular não deve se resumir à cobrança ou não de mensalidades. A universidade pública, como instrumento de Estado e não de governo, deve ter objetivos de longo prazo e de amplo alcance, não pode proceder como uma empresa do setor de varejo. Infelizmente foi um presidente professor que deu início a esta descaracterização, e é um descaracterizado presidente operário que lhe dá seguimento.

Ao concluir este texto não poderia deixar de comentar o andamento de mais uma metamorfose nas deliberações do CONSUNI da UFRJ, desta vez relativa à formulação das diretrizes para o plano diretor da universidade. A origem desta formulação se deu em fevereiro deste ano quando o CT , a COPPEAD e o núcleo de ensino a distância da UFRJ apresentaram projetos de prédios com recursos próprios. A fim de dar uma ordenação a estas e futuras propostas uma comissão foi encarregada de elaborar um anteprojeto de diretrizes. No entanto o documento que vai para deliberação na quinta-feira próxima, dia 10 de Abril, tem trechos como o seguinte: “Definir área e localizar geograficamente no Campus da Ilha da Cidade Universitária obras para construção de um prédio, em módulos, para abrigar inicialmente salas de aula para novos alunos do CCJE, do CFCH e do CLA, que ingressarão na UFRJ a partir de 2009, apresentando estudos de viabilidade técnica e propostas orçamentárias da(s) alternativa(s) possível(is), ouvidos as unidades acadêmicas, órgãos suplementares e centros universitários envolvidos; definir igualmente área e localização para instalar a biblioteca unificada de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, contígua ao prédio objeto dessa ação.” Item 4 das ações prioritárias, pág. 13. De acordo com o PRE aprovado no ano passado pelo CONSUNI, o módulo I era para execução imediata, porém os módulos II e III deveriam ser submetidos a discussão e elaboração de metas. Portanto tudo nestas “diretrizes para o plano diretor” que diga respeito a estes módulos é extemporâneo. Resta apenas verificar se o rito de votação vai seguir os mesmos moldes do ano passado.